O Partir do pão

Publicado por: trinityweb, em 26 jul 2018

Quando Jesus foi crucificado, e na continuidade dos acontecimentos após o calvário, muitos discípulos voltaram aos seus antigos ofícios retomando a vida antiga porque as esperanças estavam, de alguma forma, fragilizadas.

E tomando esse momento como contexto é que falarei dos dois discípulos de Emaús que, assim como os outros, viveram a desilusão do calvário pois acreditaram que o reino de Deus que Jesus tanto dizia ter vindo implantar, aconteceria ainda com a presença de Jesus.

A experiência dos discípulos de Emaús é muito fecunda porque é um pouco do que nós experimentamos também. Eles estavam voltando para a sua terra porque já não tinha mais sentido permanecer em Jerusalém, o mestre estava morto. Então voltar para Emaús e fazer o caminho de volta significa, dentro desse contexto, retomar o que era antigo.

Provavelmente, os discípulos tinham deixado tudo para estar com Jesus, então eles experimentaram essa desilusão, pois aquilo que tinham planejado para suas vidas caiu por terra. E enquanto faziam seu caminho de volta, desesperançosos, eles encontraram Jesus, mas não o reconheceram pois já estava glorificado. Seus olhos não podiam perceber que aquele homem que caminhava com eles e com quem puxavam assunto era Jesus.

E ele, percebendo a tristeza no olhar daqueles dois, perguntou qual é o motivo da angústia e da tristeza. E eles disseram: “Tu és o único forasteiro nesta terra que não sabe o que aconteceu? Será que só você não conhece o motivo da nossa angústia?”

Ah, é tão significativo esse voltar pra casa dos discípulos de Emaús! Este caminho de volta coloca Jesus como aquele que vai ajudando a ressignificar o que eles voltam para buscar. Na verdade, eles voltam pra casa desiludidos, mas quando chegam no lugar de seu destino e o mestre insinua que continuaria o caminho, os discípulos o convidam para ficar, oferecendo repouso pois já era tarde. E Jesus ficou com eles.

E no momento de partir o pão eles o reconheceram, porque o partir do pão é significativo na sagrada escritura. Não é só matar a fome do corpo, mas é também matar a fome da alma. Então, os discípulos perceberam que o Senhor havia ressuscitado e o principal sinal da ressurreição na vida dos dois é justamente o partir do pão, isto é, continua em nós, é o alimento que nutre a nossa esperança do Senhor aqui.

Fico pensando que nós também temos caminhos que nós andamos por dentro e que não são os caminhos que nós andamos por fora. A distância que nós andamos por dentro, são essas que nos fortalecem, são essas que nos unem. Não basta morar na mesma casa, ter o mesmo sangue ou vínculo do parentesco. Se nós não andamos dentro um do outro, ao longo da nossa vida, não somos íntimos de ninguém. Podemos até sermos parentes, familiares mas nós não moramos dentro um do outro.
Essas distâncias precisaram ser percorridas dentro dos próprios discípulos de Emaús. Isto foi necessário para que reconhecessem que aquele que estava ali de fora comendo com eles era o Senhor que havia sido crucificado e que agora estava glorificado e ressuscitado, presente de uma outra forma na vida deles e permanecendo no coração e na mente.

Quantas vezes nós também caminhamos amargurados, decepcionados, entristecidos? Quantas vezes também não estamos vivendo os nossos deslocamentos? Volto a dizer que esses deslocamentos não são meramente geográficos, não é um andar daqui até ali, mas um andar de dentro.

Eu preciso andar na direção de um Padre Fábio que ainda não sou, mas que eu posso ser pelo poder do Céu, pelo poder daquele que me elegeu. Mas é um Padre Fábio que eu não alcançarei se eu insistir e permanecer parado onde estou, se eu não ousar crescer a partir dos meus erros, dos meus equívocos. Sim, os momentos da vida em que nós erramos cruelmente com os outros e com a gente são felizes oportunidades que temos de caminhar em direção de um novo ser que podemos ser.

Todos os dias nós precisamos fazer o mesmo trajeto que os discípulos de Emaús, seja para avançar ou para retroceder. Porque tudo é caminho, não apenas o que nos leva para frente, mas também aquilo que nos faz regredir. Às vezes, o avanço só é possível quando honestamente reconhecemos que precisamos dar uns passos para trás para buscar o que nós esquecemos.

Muitas vezes esquecemos de coisas importantes da nossa história. Temos a ilusão, e escutamos muito, que devemos esquecer o que já é passado e, na verdade, não é tão mágico assim. Sim, há muitas coisas que precisamos esquecer para ir adiante como as mágoas e os rancores porque se não, não caminhamos para frente e ficamos parados, estacionados. Mas há coisas que não temos o direito de esquecer como os detalhes da nossa vida que precisam ser corrigidos por nós, pois são os enfrentamentos que nos fazem crescer.

Então a experiência dos discípulos de Emaús é profundamente familiar e nos ensina, hoje e sempre, que se nós não nos sentarmos e partirmos o pão, nós vamos nos tornando estranhos que vivem dentro da mesma casa, que convivem mas não comungam. Estranhos que estão dentro de um mesmo espaço geográfico mas que não estão dentro um do coração do outro.