A Misericórdia de Deus

Publicado por: trinityweb, em 30 maio 2018

Sempre que eu me ponho a pensar na misericórdia de Deus, que é uma forma muito privilegiada de conhecê-lo, é muito interessante porque para conhecer alguém precisamos mergulhar nas suas virtudes e nos seus defeitos. Como Deus não tem defeito, temos essa feliz oportunidade de mergulhar nas suas graças e nas suas dádivas, que nós reconhecemos como virtudes, e que humanamente queremos imitar e viver também.

E todas as vezes que eu penso nas graças que me revelam como é o coração de Deus, a misericórdia é a primeira coisa que me ocorre. Eu experimento um Deus misericordioso. Deus é amor, Deus é acolhimento, Deus é perdão e também todas as dimensões do amor que nós podemos conhecer humanamente como a fidelidade, a simplicidade, a verdade. Tudo o que se desdobra do amor.

Nós experimentamos um amor machucado, porque todo amor humano sempre tem as marcas do nosso pecado, das nossas imperfeições, mas é a partir do amor humano que podemos entender o amor de Deus, nós não conhecemos outro. Não podemos ter outra experiência a não ser a humana então é a partir dessas imperfeições que nós temos a oportunidade de mergulhar no amor perfeito do Senhor por nós. Sem máculas, sem fazer acepção de pessoas, sem excluir ninguém, um amor que é oferecido a todos, sejam santos ou pecadores. O amor de Deus é constantemente oferecido para todos nós.

A misericórdia é a aproximação existencial entre as pessoas, quando um coração sente com o outro. O meu coração é capaz de experimentar a sua miséria, então sou misericordioso com você. Da mesma forma como você também pode sentir com o meu coração a miséria que não é sua, mas com a qual você se identifica naquela hora. Por isso que pensar sobre a misericórdia de Deus nos leva inevitavelmente a pensar na misericórdia que exercemos um com os outros.

Nós experimentamos a cruz a partir de dois traços: o vertical, que nos leva ao Céu, e também na sua linha horizontal, que é o encontro com a humanidade. Eu estou ligado a Deus, mas também estou ligado aos meus irmãos, às pessoas que fazem parte da minha vida, às pessoas que eu vou encontrar pelos caminhos que eu passar.

Não há cruz apenas me ligando à Deus. A fé, a experiência religiosa, não pode me provocar apenas a oportunidade de encontrar o Senhor, mas deve também provocar a oportunidade de encontrar o Senhor nos irmãos, e essas são as duas dimensões da nossa fé. Se eu experimento apenas a dimensão vertical eu fico uma pessoa alienada e a minha fé não é capaz de fazer nada por aquelas pessoas que me circundam, ela não altera a vida de ninguém. O bonito é quando a fé faz os dois movimentos, de me levar a Deus e depois de me devolver melhor para as pessoas. Aí sim, estamos falando de uma fé aplicada, existencial e que produz frutos.

Podemos exercitar com o outro algumas dimensões da misericórdia, algumas situações em que podemos ajudar aquele irmão que sofre como o pobre, o doente, o desesperado. Por onde nós passarmos temos a oportunidade de oferecer Deus às essas pessoas, porque eu recebi e fui beneficiado com a misericórdia que me perdoa diariamente. A experiência que eu faço de Deus é de um perdão diário, todos os dias eu tenho a oportunidade de ser, por Ele, perdoado e de viver reconciliado.

A saúde mental, emocional e psíquica depende da nossa reconciliação pessoal. Uma mente harmoniosa é fruto de uma reconciliação diária que a pessoa vive consigo. Ás vezes achamos que a misericórdia de Deus exercida em nossa vida é capaz de curar-nos e de levar-nos adiante, sim, ela é sempre capaz, mas se você não faz a experiência de aplicar essa misericórdia no seu dia a dia, tendo coragem de perdoar-se por aquilo que não soube viver, ela não provoca o efeito que poderia provocar. Nós precisamos nos perdoar diariamente.

Viver a dinâmica da misericórdia, é viver diariamente a auto reconciliação que depois me devolve mais saudável pelos outros. Precisamos viver a reconciliação, a misericórdia do Senhor numa dimensão muito íntima, pessoal, acolhendo diariamente como uma regra de vida.

Não perca a oportunidade de se perdoar. Mas esse perdão deve ser um perdão fecundo, que alcance de verdade as estruturas de sua mente, a maneira como você se pensa. Porque o perdão acontece na nossa na mente e só depois vai provocar efeitos do coração.

Há um Deus que não desiste de mim, por mais frágil ou indigente que eu seja. Deus alcança nossa indigência diária, restaura-nos e depois nos envia para que, estando nós reconciliados com ele, também possamos oferecer reconciliação para aqueles que passarem por nós.